Sunday, November 30, 2008

CUBA NO CORAÇÃO

COM WALDO LEYVA E MARINA MARTENSSON

Thursday, November 27, 2008

BRASIL E ANGOLA: UMA SÓ CUMPLICIDADE

COM JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E MARINA MARTENSSON


Sunday, November 23, 2008

VIVA A LITERATURA DE MOÇAMBIQUE : PROFESSOR PATRICK CHABAL, LUIS CARLOS PATRAQUIM, PAULINA CHIZIANE, MARCELINO DOS SANTOS






















Wednesday, November 19, 2008

Painel Geração 65 : Saudade de Sérgio Albuquerque


O poeta, ensaísta e professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco Ângelo Monteiro deu início à sessão de saudade de seu amigo da Geração 65 recentemente desaparecido ,pintor e escritor Sérgio Moacir de Albuquerque

“Os homens são jovens quando sonham”, digo no poema Lição Breve do meu penúltimo livro, Os Olhos da Vigília. Este verso se aplicava muito bem a Sergio Moacir de Albuquerque. Como sonhava, mais do que vivia, fazia com que todos em torno dele se tornassem mais jovens.

Ele via no sonho uma espécie de imortalidade e por isso não tinha outros planos nem projetos senão a irradiação de sua alegria de viver sobre todos ao seu redor. Em torno de Sergio tudo se fazia viagem. E a vida era sempre um reino de felizes possibilidades.

Como permaneceu belo, transmitia permanentemente uma lição de beleza descompromissada com as rotinas da existência. Um verso da primeira parte dos seus Cantos da definitiva primavera definiu fielmente sua opção existencial: “porque o descompromisso é meu lema”. Como o descompromisso estava na base da sua efusividade permanente, se mostrava mais preocupado com o sopro da existência do que com sua brevidade.

E é porque tinha consciência dessa brevidade que fez dessa efusão de vida uma fogueira acesa sobre os dias. E a chama dessa fogueira ainda espalha suas fagulhas em torno de nós, mesmo depois de sua passagem.


Lucilo Varejão Neto , amigo de Sérgio desde os tempos do Ginásio Pernambucano, ensaísta,tradutor e Professor de Língua e Literatura Francesa da Universidade Federal de Pernambuco, deu um belo e emocionante depoimento sobre o pintor e escritor homenageado pela Fliporto 2008

Painel Geração 65 : SAUDADE DE SÉRGIO ALBUQUERQUE

Poeta Cyl Gallindo,idealizador da homenagem a Sérgio Albuquerque na Fliporto 2008.

Recatado, seletivo e arredio à vida superficial e mundana, todos os amigos de Sérgio o amaram de verdade,causando uma verdadeira comoção no Recife o seu desencantamento no último 31 de agosto.

Painel Geração 65 : Saudade de Sérgio Albuquerque

Poeta José Mário Rodrigues
autor do posfácio da Edição dos Quarenta anos de Murais da Morte, publicada em fac-símile pela Editora Fliporto, 2008
com ilustrações de Vicente do Rego Monteiro

SÉRGIO MOACIR


José Mário Rodrigues


Chegamos primeiro, eu e Ângelo Monteiro, ao velório de Sérgio Moacir, no Cemitério de Santo Amaro. Depois foram chegando Esman Dias, o pintor Delano, Celane, Tereza, Beth, irmãs do poeta. Um pouco mais, Lucila e as três filhas e os dois netos, como se pássaros fossem, absortos no ninho e distantes do mistério da morte. Mas que mistério tem a morte se sabemos que vamos morrer? Era a indagação do poeta Joaquim Cardozo, respondendo a uma entrevista que fiz para este JC.


Quando Lucila Nogueira depositou nas mãos de Sérgio o seu último livro Canto da definitiva Primavera, me veio logo uma reflexão: a gente se enterra com nossos próprios poemas. Perdoem-me todos os que escrevem poesia, mas é ilusão acreditar que seremos lidos e lembrados. São tantos os poetas que nascem e morrem e tão poucos os leitores que se o poema merecer alguma atenção será, para o escritor, como ganhar na loteria.


Sérgio transitou o seu talento por vários caminhos da arte. Possuía agudo senso crítico, era capaz de sentir o faro da grande obra. Durante a sua fase produtiva, que se deu antes do exílio em Paris e depois da volta para o Recife, tinha a luminosidade do homem especial. O seu romance Irene, publicado pela Civilização Brasileira, mereceu muitos elogios da crítica do Sul, mas nunca foi reeditado.


Ele veio de uma linhagem culta. Seu pai, Moacir de Albuquerque, foi professor de literatura do Ginásio Pernambucano, na década de 50, e era tão respeitado como critico literário a ponto de Gilberto Freyre escrever, em 1962, que "raramente tem havido nas letras brasileiras um tão fiel amor de escritor à sua vocação e à sua especialidade como o que caracterizou a atividade, desde jovem, de Moacir de Albuquerque: sua atividade de crítico literário". O professor Moacir conhecia profundamente literatura francesa e até publicou ensaios sobre Baudelaire e Rimbaud . Escreveu também sobre literatura brasileira e portuguesa dedicando vários artigos sobre a estilística de Eça de Queiroz.


Na sala do velório, a impressão que me dava era mesmo a de que o morto carregava os vivos. As recordações nos tornavam iguais. Em 1968, estávamos na faixa dos 20 anos. Sérgio, além do jeito de sábio, chamava atenção pela beleza física. Parecia um Cristo atravessando pontes e calçadas do Recife. Na época, o sociólogo Pessoa de Moraes aglutinava, em sua residência da Gervásio Pires, a grande maioria de poetas da Geração 65. Sérgio, Tarcísio Meira César, Laércio Vasconcelos, Lourdes Sarmento e eu éramos mais constantes na convivência com o autor de Tradição e transformação do Brasil.


Seu livro de estréia foi Murais da morte, publicado pela Imprensa Universitária. Com uma forte influência da poesia de João Cabral , Renato Campos, seu amigo e prefaciador, viu na obra uma espécie de "violência primitiva". Nunca entendi o que Renato quis dizer com isso. Não tem importância. Passou. Cada coisa que ele fazia era por necessidade criativa. Andou fazendo experiência com pintura e levou ao máximo o exercício de uma certa monotonia pictórica. Depois deixou de pintar, de escrever, e entrou na "definitiva primavera", uma coisa fácil para quem "vivia equilibrando sonhos na ponta dos dedos".


Poucas pessoas conheci tão desvinculadas da realidade. Nada precisava acontecer, bastava ser imaginado e vivido. Ao enterramos os nossos mortos, ficam os momentos de convivência com eles. Logo mais virá o sono, um intervalo entre o amanhecer e a "oculta ventania".

Publicado no Jornal do Commercio em 20.09.2008


Painel Geração 65 : Saudade de Sérgio Albuquerque

AS FILHAS NATÁLIA E ALMENARA TRIANA NOGUEIRA DE ALBUQUERQUE, JUNTO COM O NETO RAPHAEL ALBUQUERQUE DE MELO, ESTE ÚLTIMO OUVINDO COM MUITA ATENÇÃO TUDO O QUE ESTAVA ACONTECENDO

MARINA NOGUEIRA MARTENSSON E TODO O SEU TALENTO, QUE ALÉM DA FALA NA HOMENAGEM AO PAI TAMBÉM DECLAMOU O NAVIO NEGREIRO DE CASTRO ALVES, POEMAS AFRICANOS NA PALESTRA DO PROFESSOR PATRICK CHABAL E AS TRADUÇÕES DE AUTORIA PRÓPRIA DOS POEMAS DO NORTE-AMERICANO QUINCY TROUPE,POETA LAUREADO DA CALIFÓRNIA,BEM COMO A TRADUÇÃO INSTANTÂNEA DA ENTREVISTA DO ROMANCISTA WILLIAM GORDON COM O SEU EDITOR (RECORD)FELIPE HARRISON

Painel Geração 65: Saudade de Sérgio Albuquerque

Sérgio Moacir de Albuquerque e Lucila Nogueira no lançamento do Livro de José Mário Rodrigues, Declaração da Eterna Brevidade, em setembro de 1979, na Livraria Livro-7




Nas mãos os Murais da Morte (Edição dos 40 anos) com Marina,Anders,Tatyane,Michelle e José Mário Rodrigues

Cheguei há pouco de Bordéus e durante a viagem li "Murais da Morte". Fiquei muito impressionado pela qualidade da poesia, a densidade desta poesia escrita por um jovem poeta/intelectual/ artista - são poucos aqueles a quem os deuses concedem os dons da beleza ( mesmo fisica) , da sensibilidade e da inteligência. Há na maneira de abordar a morte algo que me é familiar na poesia do Carlos de Oliveira, a mesma espessura , mesmo perante a paisagem ( em Oliveira, a Gândara). O seu depoimento e poema são lindos, impossível não ouvir o roçar das asas de um anjo. Mas ele viverá para sempre nas vossas memórias.

Carta a Lucila Nogueira do professor JOSÉ MANUEL DA COSTA ESTEVES

Cátedra Lindley Cintra da Universidade Paris Ouest-Nanterre La Defense





Lendo o Prefácio de Murais da Morte(1968) - Edição dos Quarenta Anos(2008) - poemas das orelhas , contracapa e dados biobibliográficos






TÃO LONGE, TÃO PERTO, I WISH YOU WERE HERE


LUCILA NOGUEIRA


Há quarenta anos,em 1968, quando este livro foi publicado, Sérgio Moacir de Albuquerque tinha 22 anos e atuava na cidade do Recife como belo e precoce Rimbaud nordestino. Filho do conhecido professor de literatura Moacir de Albuquerque, precocemente desaparecido e amigo de Pessoa de Morais, Renato Carneiro Campos e Hermilo Borba Filho, a leitura e a boa convivência aguçavam seu espírito crítico, sua sagacidade irônica e, ao mesmo tempo, seu gosto estético, que se tornaria depuradíssimo.

A poesia apresentada em Murais da Morte vai surgir de acordo com a linha da Geração 65 , no que concerne ao domínio formal e o cultivo de uma certa aspereza cabralina, quer de temática, quer de despojamento retórico, na busca do avesso do lugar comum e da mesmice que caracterizava o poeta diplomata do Recife. E surge com o seu autor Sérgio dentro de uma aura de precocidade e brilhantismo, tanto que as ilustrações de Vicente do Rego Monteiro foram feitas especialmente para esta lírica.

O êxtase da intimidade com a palavra o levou a escrever romances na senda neo-realista, que permanecem inéditos. Porque com a ida para a França, logo a seguir, entrou em contato com o nouveau roman e passou a deconstruir os conceitos tradicionais de enredo e personagem na narrativa. É quando surge Irene, que seria publicado em 1974 pela Civilização Brasileira, tornando-se pedra de toque da vanguarda ficcional brasileira, obra irmanada à atmosfera vivencial da geração beat, que escrevia o que vivia e vivia o que escrevia, sem a dicotomia artificial entre autor e protagonista. Entre poesia e vida.

Havendo estudado com Lucien Goldman, Jacques Lenhardt e Roland Barthes, Sérgio adquiriu uma visão do romance em voga na Europa que só iría começar a ser compreendida no Brasil décadas depois, vale ressaltar nos seletos ambientes acadêmicos e cosmopolitas. Ao mesmo tempo, sua poesia passou a se desprender da observação e descrição realistas e começou a transitar no território da fusão de gêneros, naquele espaço lírico da narrativa que caracteriza a ficção contemporânea. Sinfonia e Canções da Definitiva Primavera dão continuidade a essa ausência de linearidade, essa quebra do esperado e do previsível.

Quando eu o conheci, em 1978, há trinta anos portanto, Sérgio estava dedicado à pintura e fazia paisagens metafísicas através de nuvens coloridas vista de cima. Ouvia Pink Floyd e Rick Wakeman, tocava um pequeno órgão noturno e tinha o cuidado de gravar em cassetes o produto desses exercícios. E um dia adormeci em seu ombro na madrugada do centro do Recife. A sua era a aparência de um deus caminhando nas ruas e ladeiras de Olinda. Um deus bem ao modo dos antigos, sempre atento à possibilidade de descer em nosso mundo primitivo, como o Cassiel de Wim Wenders, em Tão Longe, Tão Perto, ou como na seqüência de Asas do Desejo, onde um anjo se apaixona por uma trapezista.

Fechado, tímido, introvertido, não lhe agradava transitar por entre automatismos.Era um homem da casa, do mar, da música, das cores, da frequentação do corpo feminino. Vários poemas escrevi enquanto pintava ao som da música, no casarão marroquino do Janga, subindo com meus caftans longos a escada dourada até o mezanino, onde a lua nova vigiava tanta inocência até chegar a manhã nos vitrais coloridos. Guardarei sempre a lembrança das águas, nossa jangada em alto mar ,nossas caminhadas na praia, nossos corpos nas areias e nas almofadas, nosso trabalho cotidiano a cuidar das filhas. Guardarei sempre a memória de um intelectual raríssimo que sempre esteve preso à vida.

Preso à vida. Mas agora já não volta, a voz que ouço pela casa é imaginação e solitude, ecoando de baixo para cima do mezanino. O seu quarto está do mesmo jeito, não ouso tocar em nada, tudo estava esperando pelo seu retorno, permanece na sala sua cadeira vazia, de onde olhava o meu entra e sai cotidiano como espectador paciente e compassivo.


Era sonhador sem ser dramático, de sua estada na França ficara um gosto de arte e vida interrompidas, que foi diminuindo à medida que cresceram suas filhas. Tinha desprezo pelas concessões que eu fazia na vida prática para manter a nossa família no mesmo nível.

Os três últimos anos de sofrimento, como se uma praga absurda tivesse entrado em seu destino. Tristeza imensa que tanto me aturdia,o meu Netuno do Museu do Prado, belo três vezes trinta, sofrendo as chagas do Cristo com quem tanto se parecia. Sim, a vestal guardou por doze anos todo o seu fogo na vigília. Sherazade sem segunda chance, mas apenas na parte física. Porque todo o resto continuou como antes, fidelidade e adesão ao sacrifício, pois uma história quando é bonita tem que ser cumprida para ser merecida. Na saúde e na doença, na juventude e na velhice. Quem é mesmo companheira há de seguir até o fim.

Sabemos disso os loucos, os poetas, os artistas.

Saudade sempre de quem ficou sozinha.


Lucila Nogueira, Boa Viagem, 2008.



DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS


DE SÉRGIO ALBUQUERQUE


Sérgio Albuquerque é o precursor, no Brasil, da literatura herdeira da beat generation, que teve como arautos Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, sucessores do dadaísmo/surrealismo integrados às conquistas hedonistas do existencialismo que caracterizou as décadas seguintes. Nascido no Recife, a 21 de abril de 1946, filho do professor de Literatura Moacir de Albuquerque, Sérgio ali publicou seu primeiro livro em 1968, Murais da Morte e seguiu muito jovem para a França, onde estudou na École Practique des Hautes Études sob a orientação de Jacques Lennhardt e , posteriormente, Roland Barthes. Sua novela Irene foi publicada em 1974 pela Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, muito bem recebido pela crítica do sul do Brasil como pedra de toque da vanguarda ficcional brasileira. Nela já existia o hibridismo que iría instaurar o diálogo da literatura com o espírito da música pop, linha a ser também desenvolvida, logo após, pelo escritor e jornalista Caio Fernando Abreu, igualmente depois de temporada na Europa. Sérgio publicou ainda, Sinfonia, no Recife, em 1991 e Cantos da Definitiva Primavera, em São Paulo, em 1998. O livro Murais da Morte integra a bibliografia do Curso de Pós-graduação em Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, na disciplina Tópicos Avançados de Psicologia e Religião. Pintor desde os tempos de estudos em Paris, desenvolveu uma linha neo-impressionista em desacordo com o cânon figurativista da província, havendo realizado uma única individual na Galeria de Tiago Amorim, em Olinda. Sociólogo de formação, trabalhou no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, depois transformado em Fundação. Foi assessor de artes plásticas e depois editorial da Fundarpe, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. Viveu quase trinta anos com a também escritora Lucila Nogueira, com quem teve três filhas : Natália, Marina e Almenara, seguidas dos netos Alexander e Raphael. Desencantou-se a 31 de agosto de 2008 deixando inéditos romances, poemas e novelas,artigos publicados em jornal ao tempo de sua juventude, além de uma monografia encomendada pela Fundarpe, Governo de Pernambuco, sobre Osman Lins.




POEMA X X DE REFLETORES

para Sérgio


Caminho entre as cadeiras da platéia
desde o meu nascimento que estou high

você é meu personagem predileto
não vale a pena enfim dramatizar

a cidade mudou e quem devolve
os fins de tarde à mesa do Mustang

os encontros no bar da Livro-7
o strogonoff da cantina Star

feche este livro e não abra os e-mails
todo o meu erro foi pensar demais

dance tecno house ou heavy metal
o bolero e o pagode ou o frevo e o forró

os pássaros estão cantando forte
na súbita claridade da manhã

cercada de néon e raio laser
está na hora de acabar o show

caminho entre as cadeiras da platéia
o último a sair que apague o refletor

Tuesday, November 18, 2008

Painel Geração 65 : Saudade de Sérgio Albuquerque


Lucila Nogueira, José Mário Rodrigues, Marina Nogueira Martensson,Cyl Gallindo,Lucilo Varejão Neto, Ângelo Monteiro, Natália Nogueira de Albuquerque, Almenara Triana Nogueira de Albuquerque e Raphael - dia 8 de novembro, sábado às 15 horas,Porto de Galinhas


EVOCANDO SÉRGIO MOACIR DE ALBUQUERQUE


Sílvio Soares da Silva
Antropólogo e Professor Universitário
e-mail silvio.soares@uol.com.br


Convivi e ainda convivo com muitos dos integrantes da chamada Geração 65. Geração formada por talentosos e expressivos artistas desde o início de sua constituição. Romancistas, poetas, pintores, jornalistas, que souberam romper fronteiras e conseguiram se impor com a bandeira nova e criadora que desfraldaram em época politicamente difícil vivida pelo país, com acentuados reflexos em Pernambuco. A minha ligação com os componentes do grupo foi, sobretudo, de fraternal amizade. Procurei, de alguma maneira, colaborar com eles divulgando quase tudo que faziam em suas diferentes formas de expressão artística, em coluna que assinei por alguns anos no Diário de Pernambuco. Aliás, foi o Diário que começou a acolher, em meados da década de 1960, nas páginas do respectivo “Suplemento Literário”, pelas mãos do poeta César Leal, seu editor, trabalhos dos integrantes de um grupo que Tadeu Rocha, cuidadoso historiador literário, chamou num feliz instante de Geração 65.


Dentre os integrantes dessa rica e discutida geração estava Sérgio Moacir de Albuquerque: amigo, poeta, romancista, ensaísta e pintor tão sensível às coisas do Brasil, da nossa região e principalmente do Recife, cujo perfil recordo em trabalho que enviei para o recente Fliporto. Fomos colega de turma no Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco. Sentávamos lado a lado na sala de aulas.


Dos vários companheiros, os mais próximos de nós eram Cyl Gallindo, Marcos Albuquerque, Maria Célia de Azevedo e Felícia, de quem nunca mais tivemos notícias e que deixou em todos nós a marca profunda do seu espírito de luta e liberdade, que tanto cultivava. Cyl Gallindo, integrante da Geração 65, se tornaria um dos grandes promotores da nossa vida literária, sendo autor de uma antologia intitulada Agenda Poética do Recife, que congrega dez poetas e dez artistas plásticos pernambucanos, reconhecida por Audálio Alves como tendo sido aquela oportunidade a primeira vez que um grupo de artistas locais tão expressivos foi reunido em livro. Gallindo é poeta e ensaísta de fôlego, com uma obra intelectual que enriquece a nossa literatura, literatura esta que também recebe importante contribuição de Raimundo Carrero, a quem conheci na Faculdade, onde vez por outra aparecia o romancista de A história de Bernarda Soledade: a tigre do sertão, para um bate-papo entre amigos.

Sérgio Moacir de Albuquerque logo iria estudar na França. Após seu retorno ao Recife publica um sugestivo romance, Irene, e se casa com a escritora Lucila Nogueira, participante da Geração 65 e um dos nomes mais importantes da poesia pernambucana. Este casamento deu-lhe três filhas: Natália, Marina e Almenara.

Lembro-me de uma determinada aula em que um certo professor, erudito de alto prestígio e de grande reputação intelectual nos círculos acadêmicos, questionado por Sérgio sobre tema polêmico que estava expondo, e que teve na seqüência outros tantos questionamentos formulados por Marcos Albuquerque e por mim, encerrou a aula antes da hora, nos acusando de perturbadores da ordem. Apesar disto, Sérgio não era polêmico. Na realidade, ele sempre expunha, em ocasiões oportunas, uma fina e discreta ironia, que perturbava, entretanto, o interlocutor.

( PUBLICADO NO DIÁRIO DE PERNAMBUCO, A 5 DE DEZEMBRO DE 2008)

Painel : Dialogos para não esquecer

NO DOMINGO APRESENTANDO O PAINEL DIÁLOGOS PARA NÃO ESQUECER

DIÁLOGOS PARA NÃO ESQUECER

COM PATRICK CHABAL

DIÁLOGOS PARA NÃO ESQUECER
COM LUIS CARLOS PATRAQUIM E PATRICK CHABAL



MOMENTO DE PLENITUDE AFRO-BRASILEIRA
DIA 9 DE NOVEMBRO EM PORTO DE GALINHAS
COMO A CURADORA LITERÁRIA DA FLIPORTO

JOÃO MELO, AMÉLIA DALOMBA, MARCELINO DOS SANTOS,PAULINA CHIZIANE,PEPETELA,LUIS CARLOS PATRAQUIM,PATRICK CHABAL E LUCILA NOGUEIRA

Wednesday, May 07, 2008

LENDO POESIA NO RECIFE ANTIGO

TADZIO
DESDE SEMPRE O NAVIO ILUMINADO
REPETE O CAIS NOTURNO DA CIDADE
MAS NUNCA DECIDIMOS A VIAGEM
DEIXA AS TUAS METÁFORAS LÁ FORA
EM VENEZA FICARAM TRISTES MÁSCARAS
PARQUE ALEGÓRICO DE UM TREM-FANTASMA
AMA À DERIVA DESSA AUSTERIDADE
QUE TE EMBARAÇA E NÃO TE DEIXA A SALVO
DA PAIXÃO QUE TE ARRASTA À MINHA CARNE
TANTA BELEZA AGORA NOS ENVOLVE
OLHA QUE EM MEU RELÓGIO JÁ É TARDE
TEMOS DUAS PASSAGENS PRO MARROCOS

Friday, February 08, 2008

MAR CAMONIANO


Painel de Camões no GPL de Salvador

MAR CAMONIANO

LUCILA NOGUEIRA



I

O mar que não pediste

tu cantaste
água partida


à proa do navio
mar de naufrágio


como o teu destino
o mar de Goa

Macau e Moçambique

só bastavam

as águas do Mondego
ao plebeu ao bastardo

ao de um só olho
ao pássaro camão

ao cristão novo
guiado pelo sonho

em desmantelo

só bastavam

as águas do Mondego
ao cavaleiro errante

ao peregrino
saudoso injustiçado

entristecido
a vida consumida

no desterro

degredada visão

desordenada
o caos interior

o desconcerto
alma cativa

toda em carne viva
as mãos vazias

face sem espelho

ai colonizador

desamparado
expulso de sua pátria

ai como dói
vagando pelas águas

sem vontade
anônimo instrumento

de um algoz
ai vento ai porto

ai ondas turbulentas
ai viagem sem data

de voltar
ai colonizador

desamparado
depois de morto

celebrado herói
perseguido excluído

ignorado
lembrando Portugal

pelo convés
do sofrimento

construiu um mundo
tão belo

entre pessoas tão cruéis
expulso do país

que tanto amava
vai contar sua história

sem rancor
que mar há de trazer

tudo de volta
os dias de inocência

nunca mais
espíritos convulsos

leis espúrias
massacraram teus sonhos

e ilusões
da gruta de Macau

ao sol da África
Lisboa mereceu

o teu perdão ?

que mar há de trazer

tudo de volta
o mal que te fizeram

vingarás ?
navegador dos mundos


do Oriente
um dia à tua terra


voltarás ?


que mar há de trazer


tudo de volta
se o mar te deram


como outra prisão
ai vento ai porto


ai ondas turbulentas
desmoronando

o tempo linear

ai colonizador

desamparado
tremendo como Inês

entre os leões
pedindo piedade

a seus carrascos
tratado sem respeito

como um cão

chamo os desesperados

neste instante
que a ti só chegam

os que sofrem muito
segundo o grau de amor

que inda tiverem
para escutar

teus brados e queixumes

o mar que não pediste

tu cantaste
só bastavam

as águas do Mondego
ao plebeu ao bastardo

ao de um só olho
ao fundador

da língua portuguesa


I I


Os romanos diziam

que o poema
é como uma viagem

de navio
e assim tu embarcaste

entre perigos
obedecendo

à força do destino
do amor de Violante

separado
a sensação de perda

o atravessa
vai partindo o poeta

com seu fado
as ondas são seu triste


respirar
vai humilhado

vai tão abatido
ignorando

a glória após a vida
dura e fugaz

desânimo infinito
sobre as águas um sol

segue escondido
vai partindo o poeta

vai partindo
vai enfrentar a morte

o padecer
o fogo de Santelmo

a tromba d ‘água
a fome e a miséria

vai sofrer
a quem amaste tanto

diz-me agora
o amor que te perdeu

que nome tem ?
o amor por que tu foste

desterrado
a pena de degredo

foi por quem ?

navios a pano

chorem timoneiros
ao invés de cantar

sempre ao sair
que está partindo agora

para o exílio
vida mais triste

que jamais se viu


I I I


Manhã na Índia

ao longo do rio Ganges
por dezessete anos

vou vagar
nau golpeada

voz submarina
o mal de ser sozinho

desfrutar

esta cidade é Goa

sobre o Índico
aqui estou

cabo de Guardafui
escrevo uma canção

e uma elegia
e publico uma ode

e tomo vinho

digo minha odisséia

em minha lira
meu desabafo

em cantos dividido
essa história que conto

oitava rima
narra acima de tudo

a minha vida

meu poema da Índia

minha lenda
nada do que eu vivi

te esqueceu
vida errante

meu drama em desatino
ilícito desejo

me perdeu




IV




O teu poema ateu

ganhou o mundo
conseguiu iludir

a inquisição
teu degredo foi árduo

e foi profundo
mas deu sentido

à palavra amor


V

Do mar da Índia

vou ao mar da China
vou morar em um barco

de Macau
uma rua

com grades de madeira
em terras do Oriente

é Portugal

eu prefiro esta gruta

estes penedos
as entranhas da pedra

e sua voz
eu prefiro estas redes

e o destino
improvável das pérolas

no mar
o meu corpo sem corpo

o céu sem asas
o consolo budista

de não ser
eu prefiro esta gruta

e esta poesia
coroando o meu sono

português


V I


D. Manuel sonhou

fez-se a viagem
remando sem cessar

ao Preste João
e o que era uma utopia

foi verdade
Bartolomeu e Gama

a fé venceu
do cabo das Tormentas

dá a volta
ao porto de Sofala

Calicute
a rota em verso

de Malemo Cana
sem ele quem havia

de chegar ?

V I I

Quem saberia enfim

dessa empreitada
não houvesse tua voz

para narrar ?
grandeza anterior

à frota escrava
saber quem haveria

sem tua voz ?

e Gama era um pirata

ou desterrado
aos olhos de outros reis

orientais
que o julgaram tão pobre

e à sua esquadra
ao ver os seus presentes

sem valor ?

tu que fizeste Gama

um Enéias
magia secular

de tua visão
disseste em odisséia

a tua lira
por tua causa

vive Portugal


V I I I

Morreste com teu povo

e lhe deixaste
obra de gênio

em troca da pensão
e nela o julgamento

da viagem
o velho do Restelo

é tua voz

condenando a cobiça

a glória a fama
a maldição maior

do teu penar
e Felipe domina

a Lusitânia
primeira ordem:

visitar Camões

es muerto mi senõr

dicem vassalos
su corazón rompido

por mui largo
mas su poesia vive


hasta lo eterno
asi cual oceano


y imenso cielo


I X


É preciso morrer

para estar vivo
dentro da laje

hás de ser aplaudido
o governo despreza

o gênio em vida
quando morre

se cobre com o seu brilho

e o seu dia de morte

é data cívica
como se isso apagasse

a injustiça
não sabem quando nasce

e em que cidade
foi Lisboa Coimbra

ou Santarém ?

ai cidade do Porto

ai sal da Régua
água do Douro

que me viu nascer
eu vim só te fazer

a confidência
o meu sangue galego

vim rever

mundo celta

de filtros e de fadas
enquanto choro as mágoas

na canção
as naus estão sonhando

ser estrelas
como Argos se tornou

constelação


X

Quem és tu

me perguntas entre as eras
quem és tu

que os meus versos estremecem ?

sou o mar favorável

o mar adverso
sou os pólos do mundo

que degelam

sou Calpe e sou Abila

torres de Hércules
sou o segredo

que te fez poeta

sou o mar que não pediste

mas cantaste
só bastavam

as águas do Mondego

ao plebeu ao bastardo

ao de um só olho
ao fundador

da língua portuguesa
CANTIGA DE AMIGO I
OU AO LADO DO BAR GARAGEM HAVIA UMA PONTE DE VAN GOGH


ontem quis me entregar à alegria e quase ao acaso
saí com o meu leque imenso vermelho de Madame Butterfly
e depois de cantar ao microfone o princípio de Summertime eu me deixei levar a um lugar onde há muito queria estar e na hora que entrei ali mesmo no escuro do som um fauno de quase dois metros gritou meu nome e ficamos dançando twist descendo até o chão
nesse bar sem luxo como os que conheci na Colômbia depois chegou um outro sátiro que ainda não me conhecia e talvez por isso mesmo me chamou logo ao andar de cima eu confidenciei ao meu amigo essa proposta com ironia
mas o amigo não entendeu e quis subir na frente e quis ir olhar
e voltou falando que era apenas um acampamento de sofás foi quando na calçada não sei porque me vieram apresentar
uma versão do Tadzio de Visconti em plena Veneza tropical eu era apenas uma ex-colecionadora diante de uma tela presa no museu do Louvre
quando alguém jogou sua bebida em cima daquela pele que exaltava a vida desde uns cinco metros de distância em fatal pontaria de Robin Hood acontece que o Tadzio era tipo o ídolo daquele súbito Eden subterrâneo e logo vieram guardiães para agredir o agressor insensato que vestia camisa azul eu me coloquei Joana D 'Arc no centro do remoinho e do túnel de Ernesto Sábato e tudo se acalmou na esquina de um bar de fim de noite em dia de sábado o céu amparava uma lua bêbada sobre as manchas da pantera
no colar e no voile transparente que fazia a valquíria voar
eu lembrei da Sala de Reboco quando o aventureiro de Estocolmo
repentinamente pareceu querer descer em direção ao rio silencioso pelas suas margens teciam alamedas muitas plantas e jardins que olhávamos todos de pé com saudade da taça do Graal cheguei em casa com a manhã nos olhos e na barra da túnica
e um amuleto feito dos sonhos de sete druidas para recordar
que ao lado do bar Garagem havia uma ponte de Van Gogh



aos 28 anos